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Está a surgir um novo sector em torno da mobilidade

28 de Julho de 2018 17:26
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A mobilidade está a mudar as cidades. E não são só os veículos. Com veículos partilhados será preciso garagem? Como será a propriedade no futuro? Uma visão de longo prazo de Jonh Simlett, da EY.

As [administrações das] cidades têm de lidar com a mobilidade e com tudo o que a envolve: poluição, transportes, espaço. Entretanto, está a crescer um novo consumidor com novas atitudes em relação à possa, por exemplo, dos automóveis. Têm uma agenda diferente das gerações anteriores. Em qualquer lugar do mundo ocidental, cada vez menos jovens tiram a carta de condução.

Entretanto, do lado da tecnologia, há um grande investimento em em torno da mobilidade. Por um lado, temos a mobilidade tradicional (os veículos tradicionais), onde o investimento ronda em torno da conexação, da autonomia ou das questões eletrónicas. Mas existe também um novo conjunto de tecnologias emergentes e que podem potenciar os veículos, como a inteligência artificial, o deep learning ou o advento da realidade virtual associada aos automóveis.

A tecnologia vai ter impacto na capacidade que as pessoas têm de utilizar o espaço dentro do veículo, tornando-o mais personalizado.

Entretanto há também as questões de segurança. Preocupações relacionadas com a distração dos condutores e que têm sido centrais nas políticas de segurança quer dos principais construtores, quer dos governos.

Todas estas forças estão a convergir para criar uma tempestade perfeita em que o consumidor quer algo de novo, algo que é mais do que produto. Algo mais orientado para os serviços.

Entretanto, as cidades têm de lidar com as questões ambientais, o crescimento e as tecnologias que representam novos e diferentes benefícios.

Sim. De repente temos um novo sector, que surge em torno da mobilidade. E os players tradicionais do sector do automóvel, incluindo o canal, têm um papel a desempenhar neste ambiente de convergência em que empresas de media compram operadores de telecomunicações e produtores de conteúdos (o que tem consequências no mercado de publicidade), em que o intrust afeta os setores financeiro e de seguros.

E também no que diz respeito ao espaço há mudanças. O preço de construir um prédio de habitação poderá mudar, porque já não será necessário construir uma garagem ou pode, pelo menos, ser mais pequena. Em vez de um lugar para cada, pode haver uma área para carros partilhados.

Certo. No futuro quando se comprar uma propriedade pode estar a comprar-se uma parte de uma frota de carros partilhados.

Para os reguladores das cidades isso será bom, porque será necessário menos espaço para parqueamento, haverá menos congestionamentos de trânsito e a qualidade do ar será afectada positivamente.

Entretanto, as próprias pessoas, no edifício, têm outras potenciais vantagens em torno do veículo, porque não terão de se preocupar com a manutenção, ao mesmo tempo que terão vários carros à escolha.

E também a logística será impactada. Atualmente já há empresas a fazer experiências de entregas com drones. A logística “last mile” está a ganhar um interesse extremo.

Está a nascer um ambiente de mobilidade partilhada. E, no futuro, deverão surgir novos modelos de propriedade. Um exemplo será certamente a propriedade fracionada. É outra área em que a tecnologia tem uma palavra a dizer. Por exemplo, se eu não quiser partilhar o carro com pessoas que não conheço, tirando partido de tecnologia blockchain, associada a smart contracts, é possível juntar um determinado grupo de pessoas para, em conjunto comprar um veículo que será operado e gerido por terceiros. Todos pagam por uma experiência simples de acesso. É uma das formas de reduzir o número de veículos em circulação.

Mas há outras. Na China, há cidades que estão a regular o acesso à cidade, sendo necessário ter uma autorização de estacionamento para o fazer. Em Singapura, antes de se comprar um veículo é necessário comprar a licença (matrícula).

Mas pode-se ir mais além. Além de reduzir o número de veículos, também se pode rentabilizar a utilização dos mesmos. Imagine uma cidade que não quer ter veículos privados, em que os veículos são um ativo público. Imagine que são veículos autónomos. Uma pessoa, em vez de comprar um lugar de estacionamento compra uma quota de utilização de uma rede de veículos autónomos que circulam na cidade. Essa quota dá-lhe o direito a ter acessos aos veículos como quer, sendo reembolsado caso não use ou pagando mais caso precise. Passa-se de uma noção de posse para uma noção de “poder movimentar-se”. O que se paga é o uso.

Sim, como posso satisfazer a minha necessidade (chegar a determinada hora) com a melhor experiência possível. Agora imagine que além dos carros autónomos, se aplica a outro tipo de veículos, como automóveis convencionais, bicicletas, comboios. Poderá chegar-se a uma situação em que se incentiva o comportamento do consumidor que poderá optar pela melhor experiência de viagem para ele, para a cidade ou para o ambiente.

Poderá haver preços diferenciados consoante o tipo de percurso. Se tem uma hora marcada poderá não ter opção, mas se optar por um caminho mais lento poderá nem ser necessário pagar. Assim, será possível gerir o trânsito dando uma melhor experiência a quem se movimenta.

Se a pessoa estiver com pressa, poderá encontrar sugestões que lhe apontem um “mobility hub” onde poderá largar o veículo e prosseguir a viagem de metro ou em algum outro meio de transporte. Porque não um autocarro-on-demand?

Ninguém sabe. A tecnologia necessária está aí ou quase a chegar. Por exemplo, estamos a testar uma plataforma de blockchain. Conseguimos incluir mais de uma centena de veículos. E podemos experimentar com alguns cidadãos e ver como reagem. Mas, em tudo isto, penso que a adoção do consumidor é um fator determinante.

A tecnologia vai potenciar a adoção. Posso certamente criar um grupo de amigos, que vive nas proximidades e para que tenhamos um carro partilhado. Deste modo, poderei ter acesso a veículos que, de outra forma, não poderia ter. Afinal, o meu grupo pode ter um Ferrari.

A personalização, novas opções mais acessíveis e a simplificação da experiência são três coisas que vão levar o consumidor a reavaliar esta noção de economia partilhada.

Temos também de aguardar que a geração dos millenials comece a criar família. A atitude deles face a estas coisas é muito diferente. Os dados estão lançados. Vamos ver o que acontece quando os millenials chegarem à fase de criar família, se vão ou não querer possuir um veículo.

Mas ainda não foi encontrado um modelo de partilha interessante, certo?

A partilha está na infância. O que temos hoje não será o que teremos no futuro. Por exemplo, o crescimento da partilha de casas (alojamento local) está no centro de tudo isto. Será que este modelo poderá ser aplicado aos automóveis? Provavelmente será mais segmentado.

Poderá depois surgir o já referido modelo de propriedade fracionada, apoiada por governos e cidades, mas também pela tecnologia. A tecnologia permitirá escolher se se quer partilhar só com amigos ou se se quer determinado tipo de veículo. Surge a mobilidade-as-a-Service.

Continuará a ser necessário ter os veículos, os ativos. Ao criar este mundo, poderá acontecer que se vendas menos por ano, mas mais ao longo do ciclo. Se as pessoas usarem mais os carros, então provavelmente terão de ser trocados com mais frequência.

Por isso, não é líquido que serão menos veículos. Nem todos vão mudar. É difícil dizer que vai haver menos.

Poderão também surgir veículos modulares, personalizados. A reinvenção do chassis. Porque não um corpo de veículo que pode ser adaptado para ser um carro, acoplar-se a um drone ou seguir pelos trilhos do comboio? Poderei ter o chassis e alugar as rodas ou o drone que a transporta? Tenho um “espaço privado”, mas mais flexibilidade e opções para me movimentar. Não apenas na cidade, mas também fora da cidade.

A revolução da mobilidade está em curso. Eu não tenho a certeza de quantas pessoas percebem que isto vai afetar imensos aspetos das suas vidas e tantos sectores. Mas penso que as pessoas estão a começar a despertar para o assunto. O tempo não está do lado de ninguém, porque tudo vai mudar mais rapidamente do que no passado.

Fonte: jornaleconomico.sapo.pt

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