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Coqueluche na Indonésia com a pressão da polícia para ganhar

12 de Fevereiro de 2018 23:59
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Coqueluche na Indonésia com a pressão da polícia para ganhar

Foi eleito o melhor jogador da liga em 2017, época em que se sagrou campeão por um clube que pertence à polícia, e até lhe chamam Messi. Paulo Sérgio conta como é viver numa cidade com 10 milhões de habitantes e recorda o dia em que teve que sair de um jogo de tanque

Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências.

Enquanto Portugal está a bater o dente devido ao frio do Inverno, Paulo Sérgio tem em Jacarta temperaturas acima dos 30 graus e uma humidade a rondar os 70 por cento. É da capital da Indonésia, com uma população de mais de 10 milhões de habitantes e trânsito infernal, que o português que se tornou coqueluche do futebol indonésio conta ao Maisfutebol uma história de sucesso no improvável Bhayangkara FC, clube que pertence à polícia local.

«No ano passado fomos campeões, fui eleito melhor jogador da liga e estive no melhor onze. Melhor escolha não podia ter feito», conta Paulo Sérgio, que ganhou no país a alcunha de Messi português. Mas nem só de títulos e distinções se faz a vida do extremo na Indonésia e há episódios caricatos, incluindo ter de sair de um jogo dentro de um tanque.

Depois de se ter sagrado campeão de Singapura com o DPMM FC do Brunei (sim, uma equipa do Brunei joga o campeonato de Singapura), Paulo Sérgio mudou-se com a família para a Indonésia para representar o Bhayangkara FC.

O primeiro jogo foi logo atribulado. «Estávamos empatados 1-1 a cinco minutos do fim e os adeptos começaram a invadir o campo, a bater no árbitro… estava a ver que nunca mais saía dali. Tivemos que sair do estádio num tanque da polícia», recorda Paulo Sérgio, agora já sem refrear as gargalhadas que o episódio lhe desperta.

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E foi assim que o jogador teve contacto com aquela que seria a sua nova realidade, um choque em relação à vida anterior. «No Brunei era mais calmo. Aqui o povo é completamente louco pelo futebol. Os estádios estão sempre lotados, mesmo se jogar o último contra o penúltimo temos 30, 40 mil pessoas. Isso é o normal. É um estímulo maior para nós jogadores. Em Portugal, só quando jogamos contra FC Porto, Benfica e Sporting é que temos isso», lembra. E aponta mais diferenças: «Os adeptos quando são de uma equipa são só dessa equipa».

Mas o clube que representa é uma exceção porque «quase não tem adeptos». O Bhayangkara FC tinha sido fundado na cidade de Surabaya apenas dois anos antes e comprado pela polícia no início da época passada, o que não ajudou a captar adeptos, dada a pouca simpatia que muitas pessoas na Indonésia nutrem pela polícia. Por isso, quando chegou, Paulo Sérgio «não estava à espera de ser campeão», aliás, ninguém esperava que o Bhayangkara FC conseguisse tal proeza. «Não eram esses os objetivos da equipa. As pessoas aqui diziam: ‘Como é possível a equipa que está em primeiro não ter adeptos e ser comandada pela polícia?’ Mas nós fomos de longe a melhor equipa e toda a gente reconheceu isso no final», garante.

A vitória apanhou desprevenidos até os responsáveis do clube que nem sequer se inscreveram para a Liga dos Campeões Asiáticos. «A meio da época quando viram, é que se arrependeram, mas já foi tarde», conta Paulo Sérgio.

E o jogador português também teve que fazer preparativos de última hora. «Foi uma falha grande minha, esqueci-me de trazer uma bandeira portuguesa e quando vi que as coisas estavam a andar tive que mandar vir uma pela internet. Apesar de as pessoas saberem, eu tenho orgulho em ser português e quero mostrar isso».

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No final da época, apesar de ter propostas de outos clubes indonésios, acabou por renovar com o Bhayangkara FC. «Fui muito acarinhado pelas pessoas e, como fui eleito o melhor jogador, fizeram um esforço enorme para eu voltar, deram-me melhores condições», conta. «O mais importante é vermos que o nosso trabalho é reconhecido, que gostam de nós. É para isso que trabalho, para dar alegrias a estas pessoas que adoram futebol. Sinto-me lisonjeado porque faço parte da história do clube», garante.

Mas Paulo Sérgio admite que «preferia ir para os outros clubes por terem adeptos». «Gosto dessa pressãozinha de ter que ganhar por causa dos adeptos. Nós não temos isso. Sabemos que temos que ganhar porque a polícia pressiona-nos, não por causa dos adeptos», confessa, embora reconheça que após o título e, com um «grande esforço de social media», já vão conquistando mais simpatizantes.

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E para a época que começa, o objetivo é voltarem a ser campeões? «Até acho que temos melhor equipa do que no ano passado, mas sabemos que as outras equipas também melhoraram. O objetivo é pelo menos lutar pelo título. Já sentimos que as equipas olham para nós de maneira diferente. Todos querem ganhar ao campeão».

As boas prestações da época passada valeram-lhe destaque e uma alcunha. «Chamam-me Messi, mas não tem nada a ver», apressa-se a explicar Paulo Sérgio. «Não sei porquê. Eles dizem que é por causa da barba e da maneira de eu jogar, mas não tem nada a ver». Ainda assim a alcunha espalhou-se. «Os meus colegas começaram a chamar-me, e isso passou para os adeptos. Também há polícias que me chamam isso. E eu digo sempre: ‘Eh pah, por amor de Deus, eu sou o Paulo Sérgio, não sou Messi nenhum’».

Tal como fez quando se mudou para o Brunei, levou a mulher e as duas filhas, agora com 11 e seis anos. « A vida é tão diferente da que temos em Portugal, mas com a família por perto é sempre mais fácil. Para as crianças a adaptação não é tão complicada porque vão para a escola internacional e interagem com as outras crianças. Para a esposa é mais difícil», admite, mas explica que a família tem «mente aberta» e «leva as coisas na positiva».

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Foi quando Paulo Sérgio chegou que o clube deixou «a cidade mais sossegada» de Surabaya para se mudar para «a confusão de Jacarta». Aí, o jogador português encontrou um dos maiores adversários do dia-a-dia: o trânsito. «É de loucos. Eles não respeitam sinais, rotundas… há motas a virem em sentido contrário, de todas as direções. É uma aventura, uma coisa impressionante. E quando chove o trânsito ainda é pior… mais vale ficar em casa…» As palavras chegam em catadupa como os veículos nas ruas da gigantesca cidade.

E como se ultrapassa isso? «É preciso ser mais maluco do que eles. É meter a mão de lado, abanar, para eles pararem. Se não tiver a coragem de me meter, nem nas passadeiras param. Mas conduzo, tem que ser. Eles também nos dão um carro que parece um tanque…», conta, sem parar de rir.

A língua também é um obstáculo. A equipa tem tradutores e alguns jogadores indonésios que falam inglês. «Mas no dia-a-dia é raro encontrar alguém a falar inglês. As coisas mais simples já sabemos em bahasa [língua local]. O problema é quando começam a falar rápido, achando que nós sabemos falar. Mas é um povo carinhoso, querido. E se não for pela fala, é por gestos. Lá nos entendemos», garante.

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Além do clima, com o calor constante, humidade muita alta e, nesta altura, chuva intensa todos os dias, Paulo Sérgio e a família encontraram também uma cultura semelhante com a do Brunei, muito próximo geograficamente, e também um país muçulmano. «Acordam às 3 da manhã para rezar… rezam quatro vezes por dia. A isso já estávamos habituados». Houve outras questões a que foi preciso adaptarem-se.

«Aquilo que mais me impressionou aqui foram uns carrinhos parecidos com carrinhos de bebé que as pessoas usam para vender comida pelas estradas fora, às vezes no meio do trânsito. Isto tem partes muito bonitas, mas a maior parte das cidades são muito sujas e mete-me impressão ver as pessoas comer as coisas nesses sítios tão sujos», conta. Mas não são só as condições, a gastronomia também não conquistou Paulo Sérgio.

Por isso, tirando umas idas a restaurantes italianos ou vietnamitas, é em casa que a família faz as refeições ao estilo português. «Coitada da minha esposa que está sempre a cozinhar».

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«Tentamos fazer algo parecido com o que fazíamos em Portugal, mas é diferente. Eles não têm as especiarias que nós usamos, o sabor é diferente… e quando queremos algo europeu é tudo mais caro». E batem as saudades de Portugal. Só o facto de podermos ir tomar café por 60 cêntimos… aqui temos que gastar 2,5 euros por um café».

Esse cafezinho barato está a muitos milhares de quilómetros de distância. «Se estivesse em qualquer parte da Europa, podia apanhar um avião e ir passar três ou quatro dias livres a Portugal, aqui não. São 20 horas de voo, e o jet lag… Quando vimos para cá, só saímos quando acaba a época».

E voltar para jogar em Portugal? «Há sempre essa esperança, e, se houvesse uma proposta razoável para Portugal, teria ficado, mas o que apareceu, mesmo sendo I Liga, foi tudo muito baixo».

«Os clubes em Portugal pagam pouco, e só os grandes nos poderão dar as condições que nos dão cá. E depois há equipas portuguesas que pagam um, dois, três meses e depois começa a haver problemas. Aqui não há isso… faz-se um esforço, mas compensa».

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Fonte: maisfutebol.iol.pt

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