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Da Rússia a Madrid: sonhos, pesadelos e outras histórias

25 de Dezembro de 2018 19:42
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2018 foi ano de Mundial. É sempre especial e este teve muito que contar. Mas houve mais, no ano que viu o Real Madrid continuar a fazer sua a Taça dos Campeões, que quebrou a bipolarização entre Cristiano Ronaldo e Messi nos prémios individuais, teve um campeão nunca visto em Inglaterra, teve despedidas memoráveirs, estreou uma nova competição internacional e acabou com uma final sul-americana de sonho que virou pesadelo.

É aquilo que alimenta o sonho. Ganhar contra as probabilidades, partir de trás e dar a volta. Ironia, foi o Barcelona a provar do seu próprio veneno. Um ano depois de terem feito o que mais ninguém fez, virar uma derrota por 4-0 com o PSG nos oitavos para um triunfo por 6-1, os «culés» caíram em Roma nos quartos de fina da Liga dos Campeões depois de vencerem por 4-1 em casa. Uma reviravolta com um enredo incrível. De Rossi e Manolas saíram marcados da derrota no Camp Nou, ambos fizeram autogolos. E na segunda mão, depois de Dzeko pôr a Roma na frente logo aos seis minutos, foram eles que consumaram a reviravolta. De Rossi, o outro rosto eterno da Roma - 18 anos de clube, o sucessor de Totti com a braçadeira de capitão – liderou a equipa num jogo em que os italianos acreditaram sempre. E marcou o penálti para o 2-0, aos 58 minutos. Faltava um para a Roma passar para a frente da eliminatória e ele chegou aos 82 minutos, na cabeça de Manolas. Memorável. Antes do Barça a Roma tinha dado a volta nos oitavos a uma derrota por 2-1 com o Shakhtar de Paulo Fonseca para seguir em frente. Mas o raio não caiu três vezes. Na meia-final, a primeira da Roma em 34 anos, seguia-se o Liverpool. Em Anfield, os ingleses venceram por 5-2. Na segunda mão os italianos acreditaram, mas o 2-2 aos 85 minutos já não deixava espaço a grandes ilusões. Ainda assim, eles insistiram. E marcaram mais dois, um bis de Nainggolan com o segundo golo no último suspiro do jogo. 4-2, foi curto mas a história de sonho da Roma já estava escrita.

100 pontos pela primeira vez na história. 19 pontos a mais que o Manchester United, a maior vantagem de sempre para o segundo classificado. 106 golos, nunca ninguém tinha marcado tantos. Título a cinco jornadas do fim, recorde igualado. É fastidioso continuar a enumerar, foram 11 os recordes que o Manchester City bateu ou igualou com o título de campeão da Premier League 2017/18. A consagração chegou a 15 de abril, com uma derrota do United frente ao West Bromwich. Era uma questão de tempo, tal a superioridade da equipa de Pep Guardiola, que cavou cedo um enorme fosso para a concorrência. Uma época a confirmar todo o potencial de um City sublimado pelos princípios de Guardiola e por uma equipa com muito talento. Foi o segundo título de campeão inglês em cinco épocas para o clube que tem agora como desafio subir os patamares que faltam a nível europeu. E que acaba o ano sob a sombra do incumprimento do fair play financeiro. Não é o único, naquela que é uma questão estrutural, a das regras de concorrência.

2018 foi um ano de grandes despedidas no relvado. Iniesta disse adeus ao Barcelona, Buffon deixou a Juventus. E, claro, Cristiano Ronaldo foi-se embora do Real Madrid, deixando para trás o nome em todos os livros da história merengue. E foi o ano do adeus de Arséne Wenger ao Arsenal, 22 anos depois de aterrar em Londres. Chegou em 1996, um discreto treinador francês que levou mundo à Premier League. Mudou o estilo de jogo do Arsenal, mudou hábitos e soube sempre pensar sobre futebol. Ganhou três campeonatos, o último dos quais sem qualquer derrota. Desse esse Arsenal «Invencível», em 2004, não voltou a conquistar a Premier League. Ganhou mais algumas Taças de Inglaterra (foram sete ao todo), chegou quase sempre à Liga dos Campeões, 20 presenças consecutivas. Para os adeptos era cada vez mais curto e a relação foi-se degradando nos últimos anos. O fim chegou esta época. Anunciado em abril, consumado com a despedida no Emirates a 6 de maio, já depois de uma última desilusão, a derrota com o At. Madrid na meia-final da Liga Europa. A confirmação da saída de Wenger evidenciou o óbvio, um imenso legado patente nos elogios que chegaram de todo o lado. «Já não preciso de morrer, já sei como é», ironizou.

Uma época falhada na Champions transformada num título europeu. O At. Madrid foi terceiro no seu grupo, atrás de Roma e Chelsea, caiu para a Liga Europa e foi por ali fora. Outra vez. Na caminhada afastou o Sporting nos quartos de final. Ganhou em Madrid por 2-0, no meio dos primeiros sinais críticos da tormenta que iria abalar Alvalade no final da época e o Sporting venceu a segunda mão por 1-0, mas não chegou. Os «colchoneros» seguiram para a vitória sobre o Arsenal na meia-final e venceram na decisão o Marselha por 3-0, com um bis de Griezmann e um último golo do capitão Gabi. Que cedeu a outro símbolo «rojiblanco» que se despedia ali, Fernando Torres, a honra de levantar a Taça. Foi a terceira vitória do At. Madrid desde que a Taça UEFA passou a chamar-se Liga Europa, em 2009. A segunda com Diego Simeone, o líder de uma equipa que já fez história, com duas finais da Liga dos Campeões pelo meio. Um triunfo que acentua o domínio espanhol na Europa. Desde 2013, a única final europeia que não foi ganha por uma equipa espanhola foi a Liga Europa do ano passado: levou-a o Manchester United de José Mourinho. Na Liga dos Campeões, nos últimos cinco anos foram quatro triunfos do Real Madrid e um do Barcelona.

O que nos leva a Kiev e ao feudo do Real Madrid, a Liga dos Campeões. Uma época irregular no campeonato, que terminou no terceiro lugar, pouco quis dizer nesta história. O Real Madrid, que na época anterior já se tinha tornado a primeira equipa a revalidar o título, levou o estatuto a outro nível. Tricampeão europeu, a sair por cima da decisão na capital da Ucrânia, frente ao Liverpool. O 3-1 final está longe de contar a história de um jogo que teve de tudo. E começou a mudar à meia hora, quando o Liverpool perdeu Mo Salah, a estrela da época dos «reds», após um choque com Sérgio Ramos. Vinte minutos depois, um erro horrível de Lorius Karius deu o primeiro golo ao Real Madrid: ao tentar repor a bola, o guarda-redes entregou-a direitinha a Benzema. Mané ainda igualou, mas depois Bale fez o golo de uma vida, uma bicicleta para a história três minutos depois de entrar em campo. E ainda bisou para voltar a deixar Karius mal na foto e selar a noite dos horrores do guardião alemão, que seria perseguido pelos erros na final até acabar por deixar o clube no verão, cedido ao Besiktas. Para o Real, a décimotercera foi o fim de uma era. Ainda no relvado, Cristiano Ronaldo deixou o primeiro alerta para o que havia de vir: a sua saída do clube. Depois dele, Zidane. O Real escolheu Lopetegui, que nem chegou ao final do ano. Numa época errática, os merengues estão em quarto lugar na Liga espanhola, mas seguiram em frente na Champions, apesar de alguns embaraços, e acabaram de ganhar o Mundial de clubes pela terceira vez seguida, a quarta no total. Alguém se atreve a descartá-los para 2019?

O Mundial da Rússia levantou muitas questões, políticas e sociais, desde a votação que elegeu os anfitriões de 2018 e 2022. Mas em campo as nuvens deram lugar a um mês radioso. Foi um Campeonato do Mundo cheio de emoção e de histórias. Teve de tudo, a começar por um fiasco nunca visto da Alemanha. O campeão do mundo entrou a perder com o México e só venceu o segundo jogo, com a Suécia, graças a um livre milagroso de Kroos ao cair do pano. Ainda assim, o pior estava para vir. O último jogo era frente à Coreia do Sul. Foi-se arrastando, sem golos. E já nos descontos a Coreia marcou um golo, depois outro. A Alemanha, a anos-luz da equipa focada e mobilizadora de talento que venceu o Mundial 2014, não só era eliminada como se despedia em último lugar do grupo. Um enorme fracasso, que de caminho acentuou uma tendência: os últimos três campeões do mundo não passaram a fase de grupos no Mundial seguinte. Aconteceu à Espanha em 2014 e à Itália em 2010, como tinha acontecido à França em 2002. Neste século, só o Brasil em 2006 escapou a essa maldição dos campeões. A eliminação da Alemanha na primeira fase foi o grande choque do Mundial 2018, mas houve mais gigantes a fraquejar na Rússia. A Argentina sobreviveu sobre brasas à fase de grupos, mas caiu nos oitavos com a França, num grande jogo que imprimiu de vez uma lenda, a do adolescente Kylian Mbappé. E a Espanha, depois do terramoto que foi o afastamento de Lopetegui em vésperas da estreia no Mundial frente a Portugal, também saiu de cena nos oitavos, eliminada pela anfitriã Rússia.

E no fim ganhou a França. A consagração dos «Bleus», para o segundo título da sua história, 20 anos depois do primeiro, chegou no final de um Mundial que deixou ao planeta futebol grandes memórias. Antes de mais as caminhadas entusiastas da Bélgica e da Croácia, mais uma Inglaterra de futuro a superar finalmente muitos dos seus fantasmas. Todas elas semi-finalistas, já depois de ter ficado pelo caminho também o Brasil, que caiu frente à Bélgica nos quartos de final. Ganhou a França, sólida e calculista, numa final que foi um condensado do Mundial. Terminou 4-2, tantos golos como não se via numa decisão há 50 anos. Teve um auto-golo a abrir, de Mandzukic, no Mundial que os teve como nenhum outro. Depois do empate de Perisic, aos 28 minutos, a manter na luta uma Croácia que chegava ali depois de ter jogado três prolongamentos, teve um penálti batido por Griezmann depois da intervenção do VAR, em estreia e protagonista neste Campeonato do Mundo. O intervalo chegou com a França a vencer por 2-1 tendo feito apenas um remate, a segunda parte confirmou a vitória, com mais um golo de Pogba, outro de Mandzukic na baliza certa e, a colocar a cereja no bolo, um último de Mbappé, o menino que aos 19 anos deixava o mundo aos seus pés.

O futebol mexe com muita coisa e mexe muito. Em 2018 voltou a mudar a Liga dos Campeões, com mais dinheiro e mais lugares para os grandes da Europa. Voltou à baila uma Superliga europeia reservada às elites, uma história que ainda não acabou. Esteve e continua sobre a mesa a reformulação de competições sob alçada da FIFA, que vai mudar o Mundial de clubes e quer criar uma nova prova de seleções. Foi anunciada uma nova competição de clubes da UEFA. E no meio disso nasceu a Liga das Nações. Veio ocupar o espaço dos jogos particulares e condensar o calendário da qualificação para o Europeu, num formato que estava longe de ser óbvio à partida. Mas a hierarquização das seleções em divisões, repartidas por grupos com poucos jogos e a resultar em decisões ao fim de pouco tempo, deram-lhe uma dinâmica nova. Arrancou em setembro e a meio de novembro já estava definido o essencial: Portugal, Holanda, Inglaterra e Suíça vão decidir no verão, numa Final Four no Porto e em Guimarães, quem será o primeiro campeão da Liga das Nações. A Alemanha, confirmando a ideia de fim de ciclo que já vinha do Mundial, foi despromovida. E ainda sobram uns bilhetes de acesso ao Euro 2020, para atribuir mais lá para a frente.

Messi e Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo e Messi. Há mais de uma década que o planeta futebol anda nisto, uma bipolarização em torno de dois fenómenos como nunca antes se viu. Até que chegou 2018. Ano de Campeonato do Mundo, sem que nenhum dos dois tenha feito campanhas de excelência na Rússia. E quando chegaram os prémios individuais do ano, não ganhou nenhum deles. Pela primeira vez desde 2007. Foi Luka Modric, criador de jogo do Real Madrid campeão da Europa e da Croácia vice-campeã do mundo, quem levou o troféu da FIFA, primeiro, e a Bola de Ouro da France Football, depois. A discussão sobre este tipo de votações, sobre a legitimidade de uma distinção individual num desporto coletivo, sobre o que se deve premiar, o talento puro ou os troféus ganhos, voltou a alimentar conversas encaloradas, sem fim. Mas a consagração de Modric quebrou um ciclo. Se bem que ainda será cedo para falar do fim de uma era. Messi e Ronaldo ainda andam por aí, a fazer aquilo que fazem como ninguém. Tão diferentes, mas tão iguais nessa certeza.

Era um sonho. O clássico que nasceu num bairro e cresceu para se tornar um dos jogos mais icónicos do mundo, alimentado pela inigualável paixão argentina por futebol, chegava ao grande palco continental. Boca Juniors e River Plate foram avançando na Taça Libertadores e marcaram mesmo encontro na final. Seria a duas mãos, a última nesse formato: a Conmebol já tinha decidido que a partir de 2019 passará a ser jogo único. A primeira mão, na Bombonera, teve de esperar mais um dia que o previsto, adiada por causa da chuva. Quando se jogou, esteve à altura do momento – mesmo que quase todos tenham subestimado alguns sinais, como o facto de estar decidido à partida que cada um dos jogos só teria adeptos do clube da casa, por causa dos antecedentes de violência. Ficou 2-2, tudo em aberto para a decisão, marcada para o Monumental de Nuñez, casa do River Plate. E foi então. À chegada ao estádio o autocarro do Boca foi atacado com gás pimenta. Vários jogadores ficaram com queixas, o jogo acabou por ser suspenso. Ao fim de muitas diligências de bastidores, a Conmebol acabou por decidir que se jogaria, sim, mas não na Argentina. Onde então? Em Espanha, no Santiago Bernabéu. Jogou-se, ganhou o River por 3-1. Perdeu a América do Sul.

Fonte: maisfutebol.iol.pt

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