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Guardadores de vacas e do sonho de ver jogar o FC Porto

14 de Dezembro de 2018 3:54
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Para um grupo de adeptos portistas do lugar do Burguete, produtores de leite de profissão, ver o jogo entre o Santa Clara e o FC Porto deste sábado vai custar bem mais do que o bilhete. Como a hora da partida coincide com a ordenha, a opção foi pagar para lhes fazerem o trabalho. E quem aceitou, soube tirar partido do «amor à camisola». Quem não conseguiu substituição, vai, uma vez mais, acompanhar o jogo pela rádio, na companhia das vacas…

Se há tarefa que não pode falhar no dia a dia de quem vive da produção de leite nos Açores é a ordenha das vacas. Acontece duas vezes por dia, uma de manhã e outra ao final da tarde. Regra geral, é a segunda ordenha do dia que muitas vezes impede os adeptos de acompanharem os jogos de futebol.

Mas se isso é um aborrecimento quando os jogos são em palcos distantes, pior se torna quando o desafio tem lugar a pouco mais de meia centena de quilómetros da pastagem, como é o caso da partida deste sábado, que opõe o emblema da região, o Clube Desportivo Santa Clara, a um dos grandes do futebol português: o FC Porto, às 19h30, hora dos Açores.

Talvez, por isso, não seja de estranhar que a «mão de obra» suplente tire partido da situação, inflacionando o valor a pagar para render um portista na tarde de sábado.

«Pode ir aos cinquenta euros. Não fica barato. Depois é preciso somar o valor do bilhete, a viagem e a festa antes e depois do jogo, com umas cervejas ou um jantar… Mas, pelo Porto, nem se fazem contas», diz Pedro Ponte.

Contas que no caso dos primos de Pedro, Rogério e Daniel Ponte, também eles produtores de leite e portistas convictos, ficam bem mais pesadas. Trabalham juntos na exploração agrícola e nenhum quer abdicar da possibilidade de ver o jogo. «Nem era hipótese não ir», garante Rogério Ponte, o mais novo.

É que os bilhetes já estão garantidos. E só do Burguete, rua onde não vivem mais de 50 pessoas, deverão ir ao estádio mais de 10 adeptos. O ponto de encontro, como não podia deixar de ser, é no café deste povoado.

Tem «Coroa» no nome e é considerado uma espécie de «catedral do Porto». Basta reparar na cor do edifício por fora e, uma vez no interior, confirmar o mar de azul que inundou todas as paredes. Numa delas, como não podia deixar de ser, está o emblema dos dragões.

Lucro que neste sábado deve ser escasso. Por isso, o café vai estar de portas fechadas.

«Como a maioria vai ver o jogo a Ponta Delgada, vou estar aqui com um ou dois?! Aproveito e tiro uma folga», remata Iria Medeiros, numa altura em que entra no café o presidente da junta, outro elemento da família Ponte e também ele portista.

«Mas a preferência clubística pelo FC Porto vem no sangue?», inquiriu o Maisfutebol.

«Nascemos todos Porto, um ou dois é que degeneraram», ironiza Alberto Ponte, apontando o único elemento que dispensava na parede do café: um cachecol do Benfica. Depois do jejum de títulos do FC Porto, a proprietária viu-se forçada a cumprir uma promessa aos benfiquistas que lá passam.

«Numa democracia há que respeitar todos. E o Sporting também irá para a parede quando ganhar alguma coisa», volta novamente à conversa a dona do café.

Enquanto não chega a hora de regressar à exploração, mata-se o tempo entre uma cerveja e as previsões para o jogo de sábado. Fazem-se contas aos bilhetes e comprova-se que sobra um.

Imagine, mais um primo, também ele portista e produtor de leite. Apesar de ter sondado várias pessoas, Luís Carlos Ponte não conseguiu ninguém à altura da tarefa.

«Isto não é só mandar alguém para aqui tirar o leite. Tenho mais de meia centena de animais. A pessoa tem de estar minimamente preparada e habituada. E, depois, existem padrões de exigência para o leite que se entrega na fábrica que não posso pôr em risco. Desta vez, vou mesmo ter ficar pela pastagem. É o que terei mais próximo de um relvado», lamenta.

E como na exploração agrícola não há televisão, é uma vez mais o rádio, no bolso ou na carrinha, a permitir o acompanhamento do jogo deste sábado.

Fonte: maisfutebol.iol.pt

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