A abstenção, principal rival das candidatas a presidir o Chile

14 de Dezembro de 2013 0:02

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A abstenção, principal rival das candidatas a presidir o Chile

A provável vitória de Michelle Bachelet sobre Evelyn Matthei e o fato de o voto não ser obrigatório desmobiliza os chilenos no segundo turno das eleições presidenciais.

Faz tempo bom na maior parte do Chile. Bom demais para o gosto dos políticos chilenos que aprovaram por unanimidade há dois anos a reforma que tornou o voto voluntário. Agora muita gente pode ficar tentada a passar o dia na praia, num parque ou em qualquer lugar que não seja um colégio eleitoral. Essas serão as primeiras eleições presidenciais celebradas em segundo turno, onde a inscrição é automática -- ninguém teve que ir a lugar nenhum para se registrar -- e onde a lei não obriga ninguém a votar. O resultado da experiência foi regular no primeiro turno, que se realizou no dia 17 de novembro, quando quase metade dos eleitores permaneceu em casa. E agora, o temor a uma abstenção em massa é tão grande que já há vozes dentro da esquerda que levantam a possibilidade de voltar atrás, ao voto obrigatório.

Quando o sufrágio era obrigatório havia 8,5 milhões de pessoas registradas, embora na verdade votassem cerca de 7,5 milhões. No último dia 17 de novembro, com o voto voluntário, ficaram em casa 6,7 milhões de eleitores, 49,3% do censo eleitoral. Foi a participação mais baixa desde a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

A apatia do eleitorado se refletiu no interesse pelos debates televisivos. Na campanha de 1999, quando o ex-presidente Ricardo Lagos ganhou do direitista Joaquín Lavín, o rating médio foi de 49,1. Nesta campanha, chegou a apenas 30.

A ex-presidente Michelle Bachelet, candidata da coalizão de centro-esquerda Nova Maioria, obteve 47% dos votos, muito acima dos 22% que colheu a conservadora Evelyn Matthei, representante da Aliança pelo Chile. Agora se dá por certo que Bachelet ganhará. Mas ela busca a legitimidade dos grandes números para empreender as grandes reformas tributárias, em educação, além da reforma da Constituição, que prometeu. Evelyn Matthei, entretanto, acalenta a possibilidade do milagre, o "Sim, é possível". E, para isso, ambas precisam lutar contra os elementos, contra essas manhãs de verão e tardes de 30 graus em Santiago de Chile. Contra os parques cheios de gente humilde e de classe média deitada ao sol. Por isso Matthei promoveu uma campanha para que cada um de seus eleitores se proponha a levar uma outra pessoa às urnas. E por isso Bachelet reitera nas suas mensagens que ninguém deve ficar em casa.

Nas ruas não se sente muito ambiente eleitoral e as pessoas parecem mais concentradas nas suas compras natalinas nos centros comerciais. A decepção que sofreu a equipe de Bachelet ao não conseguir a metade mais um dos votos que lhe teria garantido a presidência sem recorrer à um segundo turno serviu de lição. Agora se mostram muito cautelosos e asseguram que esperam vencer com uma margem de entre 56% e 60% dos votos. A vitória se dá por certa, mas a equipe de Bachelet está preocupada com a possibilidade de que Evelyn Matthei se aproxime muito de uns 40%. Esse seria um mal resultado para a centro-esquerda porque, de alguma forma, manteria a correlação de forças que historicamente tiveram os dois principais conglomerados desse país desde 1990.

Os analistas e especialistas eleitorais, entretanto, quase não se animam a fazer prognósticos públicos: o novo comportamento eleitoral da sociedade chilena é uma incógnita para todos -- e deverá ser objeto de estudo no futuro. Mas tudo indica que a população não está mais mobilizada depois dos protestos sociais de 2011, ao contrário.

Durante esses escassos 30 dias transcorridos desde o primeiro turno, Bachelet conseguiu importantes alianças: com a Central Unitária de Trabalhadores; com candidatos do primeiro turno, como o ecologista Alfredo Sfeir; com o movimento Revolução Democrática, do ex-líder estudantil e atual deputado eleito Giorgio Jackson; e inclusive com alguns políticos de centro-direita, como o senador Antonio Horvath, cujo apoio será chave para levar adiante algumas iniciativas no Parlamento.

A equipe de Bachelet explica que no segundo turno ganha quem é capaz de somar mais forças ao seu redor e que a candidata socialista se dedicou a isso, o que deveria pesar a seu favor no domingo. Terá maioria em ambas as câmaras, mas a força parlamentar tornará complexa a reforma da Constituição, um dos eixos de seu programa. O deputado eleito da Esquerda Autônoma e ex-dirigente do movimento estudantil, Gabriel Boric, explicou há alguns dias pelo Twitter: "No novo Congresso, Bachelet terá uma maioria matemática, mas não política. As contradições internas são demasiado profundas, disse sobre a coalisão que engloba desde a Democracia Cristã até o Partido Comunista.

No último debate televisionado de quarta-feira, Matthei foi a clara vencedora ante uma Bachelet que insistiu em sua estratégia de responder de forma vaga às perguntas sobre seu programa de governo para evitar o confronto. A direita mudou sua estratégia nessa segunda etapa, com a incorporação de figuras novas e mais jovens e espera que essa injeção de ânimo sirva para mobilizar seu eleitorado nessa fase final. A equipe de Bachelet resistiu ao golpe de quarta-feira, mas a candidata parece convencida de que sua tática foi a correta. "Nessa campanha decidimos jogar limpo. Não crescer à custa da desqualificação. E o fizemos sabendo que essa forma de fazer política parece chata para muitos", disse a médica socialista na noite de quinta-feira, quando encerrou sua campanha com uma festa cidadã no Estádio Nacional.

Fonte: brasil.elpais.com

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