A franqueza na política

28 de Fevereiro de 2015 6:47

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António Costa não irá certamente ser primeiro-ministro por direito divino. Para ganhar eleições vai ter de fazer o seu caminho, apresentar objectivos, propostas para a governação.

É bom frisar também que António Costa não é um D. Sebastião. Aliás, sejamos claros, não existem D. Sebastiões. Apesar da tendência que predomina em Portugal para acreditar em figuras salvíficas que libertem o país de jugos reais ou imaginários, a verdade é que estas figuras não passam de mitos. Daí que olhar para o novo líder do PS como alguém que num passe de mágica pode resolver os problemas nacionais e de inserção de Portugal na Europa e no mundo é esperar algo que não acontecerá, simplesmente porque não é realista: não há soluções milagrosas.

António Costa teve uma semana cheia. Multiplicou-se em declarações. Algumas que desencadearam polémicas quentes, como as que proferiu sobre a situação do país depois da intervenção da troika, perante a comunidade chinesa em Portugal na festa do Ano Novo chinês. Isentou o Benfica de impostos municipais. Afastou o presidente da EMEL por sobre este penderem suspeitas de corrupção. Manteve os coordenadores das áreas do gabinete de estudos do PS que transitam assim da anterior direcção para a actual, garantindo uma continuidade interna que pode ajudar a pacificar o partido depois da campanha das eleições primárias. Deu uma entrevista ao Acção Socialista.

Entre o turbilhão que foi a semana de António Costa destaca-se a sua intervenção na conferência organizada pela revista The Economist, em Cascais. Então falou nas opções e soluções que defende e sobre a forma como o PS vê a inserção europeia de Portugal, prosseguindo a concretização de posições sobre a Europa tinha que tinha feito na entrevista que deu ao PÚBLICO, nomeadamente ao rejeitar a possibilidade de restruturação ou de renegociação da dívida. (PÚBLICO 05/02/2012).

Mas a passagem verdadeiramente importantes do discurso que fez em Cascais contribui de forma determinante para quebrar a imagem de salvador da pátria que alguns de fazem, tendo também o mérito de mostrar o lado do político que não recorre a demagogias e a populismos. Mais esta passagem destaca-se porque reflecte um conceito pouco usado nas últimas décadas na política portuguesa, o conceito de franqueza. Ou seja, a capacidade de os políticos falarem com aderência à realidade e não viverem de construções abstractas, de promessas muitas vezes irrealizáveis e que os próprios sabem que não podem concretizar, mas que prometem para conquistar votos.

Referimo-nos à decisão de António Costa de assumir, preto no branco e com todas as letras, a razão por que tem optado pelo silêncio no que toca a promessas de soluções para os problemas do país que possa vir a por em prática se for primeiro-ministro. E numa alusão implícita às cedências que o Governo grego liderado por Alexis Tsipras teve de fazer nas negociações com o Eurogrupo: “Como se tem visto nas últimas duas semanas, é um erro definir uma estratégia nacional que ignore a incerteza negocial e se bloqueie numa e só numa solução.” (PÚBLICO 25/02/2015)

O líder do PS disse aquilo que é uma evidência, mas que é um acto raro até porque se expôs à acusação de ser hesitante. E se é importante a capacidade de assumir que não vale a pena fazer promessas num cenário incerto como é o europeu e quando as soluções para os problemas portugueses dependem da posição dos Estados parceiros, importante é igualmente a abertura ao diálogo que demonstrou ao dizer que “o que é essencial é identificar correctamente os problemas, assumir a determinação de os enfrentar e ter a capacidade necessária para construir as alianças que permitam as soluções viáveis, trabalhando as várias variáveis possíveis.”

Resta saber se António Costa vai conseguir resistir à pressão para que apresente propostas e faça promessas. Uma pressão que virá como é perceptível de vários níveis do que é a comunicação social, não só de jornalistas, como das direcções editoriais dos órgãos de comunicação social, como dos comentadores e dos publicistas. Mas também pelos seus adversários políticos, os outros partidos que concorrem com o PS, quer à direita, quer à esquerda. E – é bom não esquecer – a pressão sobre António Costa virá igualmente de dentro do próprio PS, cujos quadros e aparelho político estão sedentos de poder e de conquistar o Governo.

O tempo dirá se António Costa tem capacidade de resistir ao facilitismo e à demagogia e de não deixar que a sua imagem passe de um mirifico D. Sebastião a um escorregadio vendedor de banha-da-cobra.

Fonte: publico.pt

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