"O Governo falhou", mas a Esquerda uniu-se para evitar tombo de Costa

25 de Outubro de 2017 6:48

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"O Governo falhou", mas a Esquerda uniu-se para evitar tombo de Costa

A moção de censura que o CDS apresentou contra o Governo foi rejeitada com 122 votos contra a 105 a favor. A Esquerda unida não deixou passar a crítica da Direita, considerando, até, que o único objetivo de tal ação foi a de tentar derrubar o Governo. Durante mais de três horas de debate ouviram-se aplausos, viram-se cabeças a abanar em sinal de reprovação e até vozes exaltadas. Mais um dia, portanto, na vida da Assembleia da República.

Foram, pelo menos, 25 as vezes que foi dito, esta terça-feira, na Assembleia da República que o “Governo falhou”. As palavras “falha” e “falhanço” também se incluem nesta lista proferida durante o debate e posterior votação à moção de censura ao Governo apresentada pelo CDS.

Mas não foi apenas a oposição a utilizar tais termos. Também os partidos que apoiam o Governo aos mesmos recorreram, embora de forma muito mais contida, até porque todos se recusaram a aprovar a moção de censura, dando um 'redondo não' à Direita.

Assunção Cristas foi contundente nas críticas feitas ao Executivo de António Costa, assegurando estar a dar voz à “censura popular”, o que, frisou, “vale independentemente do desfecho que venha a ter” - que acabou por ser o chumbo.

"Um primeiro-ministro não pode deixar de pedir desculpas em nome do Estado português", afirmou, referindo que quando o país "precisava de um estadista" encontrou em António Costa "um político habilidoso, mas sem fibra nem caráter".

A líder dos centristas sublinhou ainda que “quem falha uma vez, quem falha uma segunda vez, não tem estatura para ser primeiro-ministro de Portugal”.

Na abertura do debate, António Costa apresentou as medidas aprovadas no sábado, no Conselho de Ministros extraordinário, de ordenamento das florestas, prevenção e combate aos incêndios, e defendeu um "imprescindível" consenso político.

E deu a garantia de que o Governo terá a "flexibilidade necessária" para introduzir alterações no Orçamento do Estado para 2018 de modo a garantir um reforço das ações contra incêndios, sublinhando que “nenhuma das medidas adotadas para a reposição de rendimentos dos portugueses será sacrificada”, respondendo desta forma a António Filipe, deputado do PCP.

Ao longo do debate, António Costa disse que o Governo se assumia “como o primeiro responsável” pela tragédia, fugindo sempre a entrar em discussões calorosas, ao contrário do que costuma acontecer. Mas ainda assim lançou algumas farpas à moção apresentada pelo CDS. “É muito evidente que perante a devastação da tragédia, a resposta da Direita é derrubar o Governo”.

Pelo PS falou João Paulo Correia, que sublinhou que Assunção Cristas, que governou entre 2011 e 2015, “também tem explicações a dar ao país sobre as causas da dimensão da tragédia dos incêndios”, enquanto Ana Catarina Mendes acusou o CDS de ter apresentado a moção de censura com o único “propósito de derrubar o Governo”.

Por sua vez, Carlos César, presidente do PS, descreveu o debate – já na sua reta final - como “inútil” criticando os “ataques pessoais e a diatribe grosseira e continuada” feita pelo PSD e pelo CDS, frisando que o ‘tiro saiu pela culatra ao CDS’ e que, por isso, “mais valia que o CDS trocasse a moção de censura por propostas para o Orçamento do Estado”.

Discurso semelhante teve o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, que acusou o CDS de querer “tirar proveitos próprios” da moção, contando, para isso, com a “alegre cumplicidade do verdadeiro alvo da moção, o PSD”.

Do lado do PSD, o único partido a votar favoravelmente a moção, Luís Montenegro foi acutilante nas palavras: “Aquilo que os senhores queriam era o silêncio do PSD e do CDS. Mas esse silêncio (…) é próprio das ditaduras que funcionam em moldes que os senhores conhecem muito melhor do que nós”.

O ex-líder parlamentar dos sociais-democratas frisou que, “politicamente, a ex-ministra da Administração Interna mentiu ao país”, acusando o Governo de existir com o único objetivo de “não existir outro”.

Por seu lado, Hugo Soares, atual líder da bancada ‘laranja’, disse que foi “a incompetência, a soberba e a insensibilidade” do primeiro-ministro e do Governo que permitiram que as consequências dos incêndios florestais tomassem tamanhas proporções, acrescentando que “o país sabe hoje que tem um excelente primeiro-ministro a dar boas notícias, mas nas horas difíceis em que os portugueses precisam de um chefe de Governo o senhor falha”.

E mais. “O senhor primeiro-ministro não trouxe uma moção de confiança ao Parlamento porque sabia que, nem o Bloco de Esquerda, nem o Partido Comunista Português, nem o Partido Ecologista Os Verdes, a aprovariam e o senhor não tem a confiança deste Parlamento”.

Da parte do CDS, Telmo Correia dirigiu críticas não só ao Governo e ao primeiro-ministro, mas também ao ministro da Agricultura que, frisou, “tem responsabilidades nesta área, pelo menos, desde o ano de 1995 do século passado”. Responsabilidade que alarga ao Partido Socialista que “governou a maioria dos últimos 25 anos”.

Quanto à moção de censura, o centrista foi implacável: “Esta moção é inevitável porque o Governo ignorou os avisos e foi arrogante. A vossa arrogância é o resultado de quem tendo chegado ao governo como chegou acha que, por isso, tudo pode”.

Já Pedro Filipe Soares, do Bloco de Esquerda, sublinhou que a “meteorologia não pode justificar tudo”, porém, considerou que “esta é a moção de censura que gostaria que na floresta tudo continuasse na mesma”. Mais crítica foi Catarina Martins.

A coordenadora bloquista fez sobressair que uma moção de censura é “um instrumento para demitir o Governo, não é sobre dor ou indignação de um país”, considerando ainda “obsceno” e “desadequado” que o CDS apresente a moção como “instrumento para avaliar se a morte de 100 pessoas é grave” e, por isso, foi clara: “O Bloco de Esquerda demarca-se em absoluto desta moção de censura”.

Da parte do PCP, João Oliveira descreveu a moção de censura como um “aproveitamento inqualificável da tragédia para esconder a política de Direita que está na origem dos incêndios”. “O que falhou não foi o Estado, foi a política de Direita e os seus executores que deixaram as populações desprotegidas”, vincou.

António Filipe, por seu turno, optou por dirigir-se ao Governo frisando que “as pessoas acham que não se aprendeu nada com o que aconteceu em junho”, e aproveitou para lembrar que as “medidas aprovadas no Conselho de Ministros extraordinário ainda estão no papel e as pessoas precisam de sentir atos concretos no dia a dia”.

André Silva, do PAN, afirmou que o “Estado falhou”, mas considerou que “mesmo com falhas e opções políticas com as quais discordamos abertamente, este Governo demonstra querer reconstruir e tem tido a postura de ouvir e dialogar”.

Por fim, Heloísa Apolónia, do Partido Ecologista Os Verdes deixou claro que não desresponsabiliza o Governo pelo sucedido, mas recusou-se a “embarcar naquilo que o CDS está a procurar fazer que é responsabilizar o atual Governo, procurando absolver completamente tudo aquilo que está para trás”.

“Temos todos de assumir de facto as responsabilidades imediatas e estruturais que nos conduziram a estas situações”, rematou.

Mais tarde, coube ao Presidente da República reagir ao que durante mais de três horas foi debatido no Parlamento, e ao respetivo chumbo da moção. Marcelo considerou que, ao rejeitá-la, o Parlamento "reafirmou a confiança no Governo", que agora "tem de estar à altura" desta "exigência" nas medidas a implementar sobre florestas e incêndios.

"Tornou-se mais claro que a floresta é e deve ser uma prioridade política nacional, e que há politicas a definir e a executar que não são só importantes para corresponder à confiança do Parlamento, mas são importantes para corresponder às expectativas - que são muito elevadas e legítimas - dos portugueses", concretizou o chefe de Estado, deixando um apelo para que "haja uma convergência nacional" até porque "os governos não duram eternidades".

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Fonte: noticiasaominuto.com

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