«Literatura não deve abdicar do poder de ser crítica», defende escritor Almeida Faria

28 de Fevereiro de 2015 12:55

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"Não é uma arma apenas política, mas crítica, social, de tentar olhar a sociedade com todos os seus ridículos, não só a nível ideológico. Tudo isso são grandes trunfos da literatura, além de serem trunfos literários. (...) A literatura não deve abdicar desse poder que tem", disse à Lusa Almeida Faria, numa entrevista à margem do 16.º Correntes d'Escritas, que hoje termina, na Póvoa de Varzim.

O autor da "Tetralogia Lusitana" deu o exemplo de autores como os vencedores do Nobel da Literatura Orhan Pamuk e Boris Pasternak, para sublinhar que "o escritor ainda pode ter essa força", apesar de reconhecer que "há poucos escritores com esse olhar crítico sobre a sociedade".

Por outro lado, Almeida Faria referiu que "a literatura de passatempo, que hoje existe muito e até se vende bem é um bocado um produto de consumo; muitas vezes aquilo vende-se, mas, passados cinco ou 10 anos, já ninguém se lembra desses livros", sendo a qualidade de não envelhecer a prova do que "é mesmo literatura".

Almeida Faria disse que a reedição da "Tetralogia Lusitana", pela Assírio & Alvim, foi uma boa oportunidade para revisitar os textos que já tinha "quase esquecido".

"Estou tentando fazer o melhor possível -- faço sempre -- mas agora, como já tenho mais experiência, tento tornar os livros transparentes, se é possível, para que o leitor sinta que aquilo está dito com o essencial. O número de palavras certas, sem adjetivos, advérbios de modo. Muitas coisas dessas são inúteis. 'Eu seguramente vou passear'. Se eu disser 'eu vou passear' fica dito", afirmou.

O autor, nascido em 1943, acrescentou que a próxima reedição vai ser a de "O Conquistador", que ainda vai rever mais, "porque pode ganhar até em ser um pouco aumentado".

O escritor, que se estreou com "Rumor Branco", em 1962, recordou que o livro, fruto de "raiva" à ditadura, "foi quase um manifesto" da revolta estudantil daquele ano e teve como consequência um episódio, numa aula de Direito Administrativo com o próprio Marcelo Caetano, em Lisboa.

"Num anfiteatro com 200 e muitas pessoas. O professor era o Marcelo Caetano. Começou a aula por perguntar quem era o 'fulano de tal'. Lá tive de me levantar. Tudo aquilo era com muito respeitinho e, durante 50 minutos, interrogou-me sobre o horário das tabernas. Abriu o Código do Direito Administrativo, que era feito por ele. Foi uma coisa de pura humilhação pública", disse Almeida Faria.

Fonte: diariodigital.sapo.pt

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