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O sábado da discórdia na Autoeuropa: “Há muitos casais que não têm sequer a quem deixar os filhos nesse dia”

31 de Agosto de 2017 7:11
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Pela primeira vez em 26 anos (excetuando greve geral), os trabalhadores da Autoeuropa aderiram a uma greve de 24 horas que paralisou a produção da fábrica de Palmela. O sindicato faz um balanço “positivo” da adesão à greve e lembra que os trabalhadores têm um ponto central em desacordo com a proposta da administração: o trabalho obrigatório ao sábado. “Os trabalhadores não querem ter a obrigação de trabalhar todos os sábados, mesmo que fosse com o pagamento como horas extraordinárias como acontece até agora sempre que a empresa tem pedido”, afirma ao Expresso o sindicalista Eduardo Florindo.

A inédita greve na Autoeuropa - onde as relações laborais entre os trabalhadores e a administração foram estáveis durante mais de 20 anos - começou às 23h30 de terça-feira e prolonga-se até à meia-noite desta quarta-feira. A meio da tarde, a administração da empresa, que anteriormente tinha recusado negociar com os sindicatos, aceitou reunir-se com o SITE Sul (Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Atividades do Ambiente do Sul), afeto à CGTP, no próximo dia 7 de setembro.

Para essa reunião, a prioridade, diz Eduardo Florindo, é fazer com que a administração retire a proposta de alteração do horário referente aos sábados. “Neste momento, no interesse dos trabalhadores, a principal reivindicação passa pela empresa retirar a proposta e iniciar negociações connosco ou com a nova comissão de trabalhadores.”

O sindicalista realça que não é o pagamento que está em causa e “não contestam” a criação do terceiro turno (das 0h às 8h). Apenas, sublinha Eduardo Florindo, o facto de os trabalhadores passarem a ter de trabalhar todos os sábados, que significa um maior desgaste, cansaço acumulado e até a impossibilidade de conseguirem ter dois dias de folga seguidos. “Há muitos casais que não têm sequer a quem deixar os filhos nesses dias.”

A 27 de julho, a empresa tinha comunicado ter chegado a um acordo de princípio com a comissão de trabalhadores cessante, de forma a compensar o modelo laboral de 2018. É que para o ano a fábrica pretende produzir mais 200 mil viaturas, “quase triplicando a produção atingida em 2016”, e isso, comunicou a Autoeuropa, “leva à abertura de um sexto dia de produção”.

“O modelo tem enquadramento legal e assenta em cinco dias individuais de trabalho, distribuídos entre segunda a sábado. O acordo de princípio prevê um pagamento mensal de €175 adicionais ao previsto na lei, 25% de subsídio de turno e a atribuição de um dia adicional de férias. “Estas medidas representam um incremento mínimo de 16% no rendimento mensal dos colaboradores abrangidos por este modelo de trabalho”, explicava o comunicado da empresa. “A fábrica estará em produção seis dias, com três turnos diários, uma folga fixa ao domingo e outra rotativa ao longo da semana.”

Eduardo Florindo explica que essa proposta foi acertada apenas com a comissão de trabalhadores cessante - liderada durante 20 anos pelo sindicalista António Chora, ligado ao Bloco de Esquerda - mas que os trabalhadores “sempre estiveram contra essa solução”.

“A paralisação durante um dia normal de trabalho tem sempre impacto no objetivo da produção diária. Porém, a fábrica tem capacidade de se adaptar para recuperar a produção perdida ao longo da semana”, assegura a Autoeuropa ao Expresso, questionada sobre quais os prejuízos desta paralisação. Também sem noção dos prejuízos, o sindicalista garante que “não foi produzido um único carro” esta quarta-feira.

A anterior comissão de trabalhadores, liderada por António Chora, conseguiu manter a estabilidade nas relações laborais entre a administração da empresa e os trabalhadores durante cerca de anos. Em entrevista ao “Jornal de Negócios” esta quarta-feira, Chora acusou o SITE Sul de estar a fazer um “assalto ao castelo” na Autoeuropa. “É claramente o assalto ao castelo e a tentativa de o PCP pressionar o Governo para algumas cedências noutros lados”, acrescentou o sindicalista na entrevista ao diário.

Eduardo Florindo, coordenador do SITE Sul, acredita no entanto que seja possível chegar a um acordo com a administração: “É sempre possível chegar a um entendimento, como sempre foi nesta empresa.” E acrescenta: “Espero que a administração da empresa saiba fazer a leitura correta dessa adesão à greve, ou seja, que percebam o descontentamento em relação à proposta que tinha sido apresentada”.

Fonte: expresso.sapo.pt

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